Dia do Cinema Brasileiro: Entre altos e baixos, o nosso cinema, que tem uma linda história, chega ao seu dia sem muito o que comemorar

Em 1898, Afonso Segreto, primeiro cinegrafista brasileiro, registrava as primeiras imagens em movimento no Brasil. As imagens eram da Baiá de Guanabara, no Rio de Janeiro, e foram exibidas na primeira sala de cinema do Brasil. Um espaço chamado Salão Novidades de Paris, criado também por Afonso Segreto. E assim começava uma história com altos e baixos do cinema brasileiro. Este que já esteve nos principais festivais pelo mundo, e sempre conquistando prêmios. Além de ter importantes participações no Oscar.


Assim como qualquer outra forma de arte, o cinema brasileiro também teve suas fases, suas escolas e seus principais nomes. Épocas de ouro como a do estúdio Vera Cruz e Embrafilme. Épocas mais difíceis onde surgiram obras mais politicas, como o Cinema Novo, e o período das Pornochanchadas, em uma fase mais despreocupada e comercial. E teve também seu pior momento com o fim da Embrafilmes, que gerou um apagão no cinema nacional. Porém, logo depois vem o melhor período, que se estende até os dias de hoje, onde mais se produz filmes. 
No entanto, agora temos um futuro incerto, pois as Leis de incentivos estão cada vez mais defasadas, o desmonte na Ancine está cada dia mais forte e os recursos estão indo por água a baixo com os últimos dois governos. E agora com a pandemia do novo Coronavírus, podemos viver mais um apagão no nosso cinema, pois se antes já não tinha recurso, imagina agora com o governo tendo que gastar tudo no combate ao vírus? 
Mas antes de falarmos sobre os dias de hoje, vamos destacar as principais fases do Cinema Brasileiro e seus momentos mais marcantes neste seu primeiro século de vida. 

PRIMEIRAS PRODUTORAS

"Os Estranguladores", do cineasta luso-brasileiro António de Leal, produzido em 1908 é considerado pelos historiadores o primeiro filme de ficção brasileiro. Pois antes, os filmes produzidos  eram todos de caráter documental, onde os cinegrafistas apenas gravavam cenas aleatórias e depois às exibiam. 
Até a década de 30, vários filmes foram produzidos de forma independente, mas foi só neste período que surgiu a primeira grande produtora no Brasil chamada Cinédia. As produções mais importantes dessa época foram: Limite (1931), de Mario Peixoto; A Voz do Carnaval (1933), de Ademar Gonzaga e Humberto Mauro e Ganga Bruta (1933) de Humberto Mauro. 
Já na década de 40, surge a Atlântida Cinematográfica, com as chanchadas, filmes cômicos ou musicais que fizeram bastante sucesso e revelaram grandes nomes do cinema como: Grande Otelo, Oscarito e Anselmo Duarte. Os principais filmes foram:  Moleque Tião (1941), Tristezas Não Pagam Dívidas (1944) e Carnaval no fogo (1949).

Mazzaropi alegrou o brasileiro durante décadas com seus filmes engraçados

Em 1949 surge um dos estúdios mais importantes para o cinema brasileiro, chamado de estúdio Vera Cruz. Este revolucionou a forma de fazer cinema no país, trazendo para cá o formato hollywoodiano de fazer cinema e apresentou alguém que muitos reconhecem como o maior nome do cinema brasileiro: Mazzaropi e seus filmes engraçados que lembram o formato dos filmes do Charlie Chaplim. 

DO POLÍTICO AO ESCRACHADO, AS FASES DO CINEMA BRASILEIRO

O cinema brasileiro sempre foi bastante plural. Com filmes de todos os tipos e gêneros. Mas foi em algumas fases do cinema que alguns gêneros mais se destacaram e ficaram marcados na história do nosso cinema. 

Cinema novo
"Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça", era o lema do cineasta Glauber Rocha, conhecido como o grande nome do Cinema Novo brasileiro, que surgiu forte na década de 60. Neste período, os cineastas começaram a produzir filmes com o cunho político e social. Pouco se preocupavam com a estética e técnicas de filmagem. O único objetivo era apenas passar a mensagem, e isso eles conseguiam fazer muito bem 
Do cinema novo destacam-se as produções do cineasta baiano Glauber Rocha: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968).

Confira uma entrevista com Glauber Rocha:


Cinema Marginal
Mais tarde, em fins da década de 60 e início dos anos 70, surge o cinema marginal denominado também de “Údigrudi” (1968-1970). As maiores produtoras dessa vertente foram "Boca do Lixo", em SP e "Belair Filmes", no RJ.
Essas produções estavam bastante alinhadas com o movimento de contracultura, ideologias revolucionárias e também com o tropicalismo, movimento musical que ocorria na mesma época. Sofreu grande censura por parte do regime militar que se instaurava no país.
Essa vertente foi baseada no cinema experimental de caráter radical. Um filme de grande destaque foi O Bandido da Luz Vermelha (1968), dirigido por Rogério Sganzerla.

Cena de O bandido da luz vermelha (1968)
Pornochanchadas
Quando eu citei o termo 'escrachado', no subtítulo deste tópico, eu estava me referindo a este período do cinema brasileiro. Que foi uma das fases mais lucrativas e mais comerciais que o nosso cinema viveu. Pra ter uma noção, foi nesta fase que surgiu o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, que manteve o recorde de maior bilheteria brasileira até poucos anos atrás. O Longa teve mais de 10 minhões de espectadores.
Baseada nas comédias italianas e com forte teor erótico.Esse gênero, que surge nos anos 70, teve enorme destaque na década, fazendo grande sucesso comercial no Brasil. Como exemplo, temos a película A Viúva Virgem (1972), do cineasta Pedro Carlos Rovai.

DA CRISE AO GLAMOUR 

Até a década de 80, o cinema brasileiro teve algumas pequenas crises, tanto de identidade, quanto financeira. Com estúdios ascendendo e morrendo na mesma velocidade, com a invasão do cinema americano e fazendo o brasileiro esquecer o cinema nacional, e principalmente com a censura imposta pela Ditadura Militar. 
Mas nada disso pode ser comparado ao que a indústria audiovisual viveu no começo da década de 90 com o fechamento da Embrafilmes, pelo então presidente Fernando Color, que ao assumir, cria um programa de desestatização, estingue o Ministério da Culta, que consequentemente fecha a Embrafilme. 


Sem dinheiro, es estúdios quebram e o país passa a produzir cerca de 5 filmes por ano de 1990 há 1995. Essa fase é considerada como o grande apagão do cinema brasileiro. Assim, foi somente na segunda a partir de 95 que o cinema ganha força, com a produção de novos filmes. Esse período ficou conhecido como “Cinema de Retomada” depois de anos imersos na crise. 
A partir disso, a produção de filmes cresce e são criados diversos festivais no país. É criada também a Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual, sendo implementada uma nova legislação, a “Lei do Audiovisual”.
A partir de 1995, o cinema brasileiro começa a sair da crise com a produção do filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1994) de Carla Camurati, o primeiro realizado pela Lei do Audiovisual.
Nessa década, merecem destaques as produções O Quatrilho (1995), de Fábio Barreto e O Que é Isso Companheiro? (1997), de Bruno Barreto. e o importante Central do Brasil (1998), dirigido por Walter Salles. 

DESTAQUE INTERNACIONAL 

A partir daí, o cinema brasileiro começou a se destacar em festivais e até mesmo no Oscar com filmes como o próprio Central do Brasil, que foi indicado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz em 1999. Depois com Cidade de Deus, com 4 indicações em 2004, sendo estas Melhor Direção, Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Roteiro Adaptado. Além de documentários como Sal da Terra, de Sebastião Salgado em 2015 e Democracia em Vertigem de Petra Costa em 2020. E a animação O Menino e o Mundo do diretor Alê Abreu em 2016. 


Mas antes disso tivemos outras indicações que você pode conferir a baixo:

1945: Brazil

O compositor Ary Barroso foi o responsável pela primeira indicação do Brasil ao Oscar. Em 1945, sua música “Rio de Janeiro” disputou como Melhor Canção pelo filme Brasil, mas acabou perdendo para "Swinging On A Star", do longa O Bom Pastor.


1963: O PAGADOR DE PROMESSAS

Baseado na peça de Dias Gomes, O Pagador de Promessas rendeu ao Brasil sua primeira indicação a Melhor Filme Estrangeiro. Embora tivesse levado a Palma de Ouro em Cannes no ano anterior, o filme do diretor Anselmo Duarte não saiu vitorioso. A Academia preferiu premiar o longa francês Sempre aos Domingos.

1996: O QUATRILHO

Demorou 30 anos para que o Brasil voltasse a ser indicado à categoria Melhor Filme Estrangeiro. O longa em questão foi O Quatrilho, do diretor Fábio Barreto. Mas quem saiu premiado foi A Excêntrica Família de Antonia, da Holanda.


1998: O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?


Em 1998 o Brasil voltou a ser lembrado pela Academia pelo longa O Que é Isso, Companheiro?. Baseada no livro do jornalista Fernando Gabeira, a produção foi dirigida por Bruno Barreto, irmão do cineasta por trás de O Quatrilho. Mais uma vez, o Brasil perdeu para a Holanda na premiação, que levou a estatueta por Caráter.

FUTURO INCERTO

Como eu deixei claro no título desta reportagem, o cinema nacional não tem muito o que comemorar neste dia de hoje. Pois estamos vivenciando um dos maiores desmontes da Ancine e seus programas de incentivo ao audiovisual. Quem não lembra quando, em setembro de 2019, o governo Bolsonaro cortou 43% do orçamento da Ancine? Além disso,  os projetos de incentivo ao audiovisual no Brasil já estão parados desde o começo do governo Bolsonaro e já vinha decaindo desde o governo Temer.

No vídeo a baixo explico sobre os investimentos no cinema.

 

 Agora o Fundo Setorial do Audiovisual, está no vermelho, pois segundo o último relatório o órgão, que antes tinha 723 milhões em caixa, agora está em deficit. 
O FSA é constituído por tributos pagos por empresas de cinema, TV, publicidade e telefonia e foi responsável, nos últimos anos, por viabilizar boa parte dos filmes e séries produzidos no país. Em 2019, o valor empenhado no FSA foi de R$ 723 milhões. Era com essa cifra que o setor vinha contando.
O que se achava, até pouco tempo, é que o dinheiro não era liberado porque o Comitê Gestor, a quem cabe definir as linhas de investimento do fundo, não consegue se reunir. Não consegue porque o governo não o convoca.
E agora com a pandemia do Coronavírus, a situação pode se agravar ainda mais. Pois se o governo não se preocupa com o cinema tendo recursos e não tendo que se preocupar com o país quebrado, imagina agora? 
Assista o vídeo a baixo para entender melhor quais consequências a pandemia pode trazer par o cinema:





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