“Sem leis de incentivo não existiria cinema no Brasil”, diz diretor Luiz Carlos Lacerda no Piauí
O cineasta Luiz Carlos Lacerda esteve em Teresina nesta quinta-feira (26/10) para participar de um debate sobre o seu filme “Introdução a Música do Sangue”. O debate aconteceu no Cinemas Teresina, onde respondeu perguntas, tirou dúvidas e ouviu sugestões.
Com 52 anos de carreira, e atualmente 72 de idade, Luiz Carlos Lacerda é um dos diretores mais respeitados atualmente no Brasil. Ele já participou de mais de 200 projetos, entre filmes séries, novelas, onde já foi diretor, retorista e protutor.
Ele dirigiu filmes muito conhecidos com “Leila Diniz” (1987) e “For All – O Trampolim da Vitória” (1997), que ganhou vários prêmios em festivais. Lacerda ainda é professor de cinema na Escola Internacional de Cinema de Cuba e na Estácio Sá de Santa Catarina.

Luiz Carlos Lacerda esteve debatendo sobre seu filme (Foto: André Luis/Cine Piau)
O Cine Piau entrevistou o cineasta, que comentou sobre seus filmes, falou sobre identidade cinema brasileiro e fez duras críticas ao mercado cinematográfico, além de apontar as dificuldades de viver de cinema no Brasil.
Cine Piau: Vamos começar falando sobre o seu filme. Como foi a construção do filme Introdução a Música do Sangue?
Lus Carlos Lacerda: Este filme é baseado no argumento inacabado do escritor romancista Luis Cardoso, um importante romancista do romance psicológico brasileiro dos anos 30. E ele me deu esse argumento há 5o anos atrás, mas eu segui outros caminhos, fui fazer outros filmes. E agora há uns dois anos eu reencontrei esse argumento, achei que deveria fazer.
Eu já tinha feito três filmes com o Luís Cardoso como tema. O meu primeiro curta metragem, “O enfeitiçado”, de 1968, é sobre ele, porque ele foi um escritor que teve um derrame cerebral e ficou impedido de escrever, então a única coisa que mexia nele era a mão esquerda. Aí ele começou a pintar, e eu achei que isso era uma coisa incrível, um cara que de repente ficou impedido de exercer sua forma de expressão, descobriu uma. E essa pintura dele dá uma continuidade, a mesma atmosfera pesada, sombria dos romances dele.
O filme precisava de um ambiente no interior do Brasil, em Minas Gerais. Eu tive apoio do polo audiovisual de Cataguases. E fui para lá e achei as locações e tive como um grande desafio o Ney Latorraca, já que ele está muito marcado pela comédia. Eu queria botar esse cara que você olha para ele e já começa rir fazendo um papel sério, e eu consegui fazer isso, as pessoas elogiam muito o Ney.
O filme fala do desejo, e sobretudo também, a repressão do desejo, onde pode essa repressão levar um ser humano.

Diretor tem 52 anos de carreira (Foto: André Luis/Cine Piau)
Cine Piau: Ultimamente no Brasil, muito se tem criticado as leis de incentivo a cultura, principalmente as Rouanet e a audiovisual, você como alguém que produz cultura, como você recebe essas críticas?
Luiz Carlos Lacerda: Sem essas leis de incentivo não existiria cinema brasileiro, pois a gente já não tem um mercado, dificilmente um filme tem um retorno e consequentemente você não pode fazer o próximo filme, porque não tem retorno. Aí você pergunta: por que fazer filme se não tem retorno? Não tem retorno no ponto de vista financeiro a grande maioria, mas o retorno definitivo é a identidade cultural.
Se alguém vier para o Brasil daqui a cinquenta anos, não será através das novelas que eles vão procurar conhecer a antropologia do homem brasileiro, mas sim através dos filmes. Especialmente dos filmes independentes, que falam da alma humana brasileira.
A gente para passar no cinema tem que ter uma lei de obrigatoriedade. Porque a gente trabalha em um mercado dominado pelo cinema americano, é território invadido. Então assim como tem que ter leis de incentivo, tem que ter também reserva de mercado.
Nos anos 40 nós chegamos a dominar 60% do mercado. Tem público para o cinema brasileiro, o importante é ter visibilidade e passar para as pessoas verem. Ainda falta uma vontade política de enfrentar os grandes grupos estrangeiros que dominam o cenário brasileiro. Esse é o grande problema. Onde já se viu ter uma lei que obriga a passar filme brasileiro no cinema? Agora, essas pessoas que criticam a lei Rouanet, isso dai é ignorância, falta de noção política da relação do cinema com a economia. Este é o mercado dominado pelo produto estrangeiro e a gente tem que ter uma proteção.
Nos anos 40 nós chegamos a dominar 60% do mercado. Tem público para o cinema brasileiro, o importante é ter visibilidade e passar para as pessoas verem.
Cine Piau: A gente sabe que no Brasil é muito difícil viver de cinema e produzir filmes. Você com 52 anos de carreira, como você observa esse problema?
Luiz Carlos Lacerda: É difícil mas é uma questão que é fundamental para qualquer ser humano, essa questão profissional você vai escolher a sua turma para o resto da sua vida. O profissional é a coisa mais importante. Mesmo sendo complicado, eu não conseguiria me enxergar fazendo outra coisa.
É difícil? Sim, mas não é impossível. O cinema brasileiro é possível, e eu estou falando de uma cinematografia com altos e baixos mas que tem um peso dentro da própria cultura brasileira.
Cine Piau: Você acredita que o cinema brasileiro tem uma identidade?
Luiz Carlos Lacerda: Claro, vários movimentos que tem uma identidade. Assim com a gente teve o cinema novo, como a Itália teve o neorealismo italiano, até as pornochanchadas têm uma identidade. Representa um lado da cultura brasileira, que é essa coisa sacana e brincalhona.
Hoje em dia a nossa identidade está representada na tela através da diversidade, da linguagem. A gente é um continente com culturas extremamente diferentes e diversas. E hoje em dia não é só o cinema do São Paulo e Rio que está na tela. O cinema do Brasil inteiro.
É a comida, é língua, é a maneira de viver, de amar. É tudo diferente, daqui para o Ceará é diferente, do Ceará para Pernambuco é diferente. Então essa diversidade que é o Brasil, hoje já está nas telas.
Hoje em dia a nossa identidade está representada na tela através da diversidade, da linguagem. A gente é um continente com culturas extremamente diferentes e diversas. E hoje em dia não é só o cinema do São Paulo e Rio que está na tela. O cinema do Brasil inteiro.

Lacerda criticou o Oscar (Foto: André Luis/Cine Piau)
Cine Piau: Neste ano muito se fala que o cinema brasileiro está ficando muito parecido com o americano. Você acredita que isso realmente está acontecendo?
Luiz Carlos Lacerda: Não, eu acho que dos cem filmes que se faz por ano deve ter uns vinte que querem ser cópia do cinema americano. Um ou outro tem um retorno financeiro, mas o cinema independente brasileiro, o cinema autoral, que representa essa diversidade, e tem uma visibilidade muito pequena, é o que vai ficar, e que vai representar sempre.
Eu acho que dos cem filmes que se faz por ano deve ter uns vinte que querem ser cópia do cinema americano. Um ou outro tem um retorno financeiro, mas o cinema independente brasileiro, o cinema autoral, que representa essa diversidade, e tem uma visibilidade muito pequena, é o que vai ficar
Cine Piau: Recentemente a Petrobras junto com a Vitrine Filmes exibiram a Sessão Vitrine, que deu espaço nas salas de cinema do Brasil todo para filmes não comerciais e autorais. Você acredita na importância de iniciativas como estas?
Luiz Carlos Lacerda: Eu acho que todas as iniciativas que tem a intenção de formar público e de oferecer a este público a oportunidade de ver um tipo de cinema que não é o cinema convencional e comercial é muito importante. Assim como são importante os festivais de cinema, que é onde estes filmes que não tem espaço para entrar no mercado, circulam.
Eu, particularmente, sempre estou em muitos festivais, principalmente os festivais do Rio, que é a minha terra. Todo ano que eu tenho um filme estou lá. Já ganhei festivais pelo Brasil. Acho importante os festivais. Inclusive faço um workshop de vinte anos na Mostra de Cinema de Tiradentes, e a gente realiza um curta em nove dias.
A minha equipe do filme Introdução a Musica do Sangue, noventa por cento é constituída de jovens oriundos dessas oficinas.

Diretor critica osca (Foto: André Luís/OitoMeia)
Cine Piau: Para você, qual é a melhor fase do cinema brasileiro?
Luiz Carlos Lacerda: Na época da EmbraFilmes, apesar da ditadura militar, a gente tinha um militar no poder que era nacionalista, o Ernesto Geisel. Ele acreditava que a gente tinha que ter um país forte e, consequentemente, tinha que ter um cinema forte, e nessa a gente conquistou mercado.
Tivemos leis de proteção, cento e oitenta dias por ano era de filmes brasileiros. Essa foi uma época muito importante, a EmbraFilmes produzia todo o tipo de cinema. Agora eu acho esse momento atual muito importante por causa das novas tecnologias, se você não ganha um edital, você junta a sua turma e faz o filme.
Eu acho isso uma bobagem, essa festa é a festa dos nossos inimigos, é o pobre tentando entrar pelas portas dos fundos, para tentar ganhar um salgadinho, eu acho uma porcaria esse negócio de Oscar
OitoMeia: Agora há pouco tempo saiu o resultado do filme que vai representar a gente no Oscar. O que você acho dessa decisão?
Luiz Carlos Lacerda: Eu acho isso uma bobagem, essa festa é a festa dos nossos inimigos, é o pobre tentando entrar pelas portas dos fundos, para tentar ganhar um salgadinho, eu acho uma porcaria esse negócio de Oscar. Eu gosto mesmo é do Oscarito, que é um troféu que dão lá em Gramado para personalidade do cinema brasileiro.
O Oscar é um desejo do colonizado de ser aceito pelo colonialista, é uma festa do mercado americano. A gente não tem nada haver com isso. Eu acho uma contradição certos cineastas independentes ficarem putos porque o filme dele não foi escolhido para ser o representando do Brasil.
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